terça-feira, 25 de agosto de 2009

O estupro

Meninas, esse texto é grande, mas vale muito a pena! Ps. Tá sem revisão.



O Estupro

Emmanuèle Durand

Eu andava pela rua do Four em direção ao metrô, voltando para casa. Eram oito horas da noite. Enquanto atravesso a rua um moço me vê do outro lado da rua, me avalia, me espera e me aborda. Ele é de altura média, nem feio nem bonito, vestido burguesmente, usa óculos. (Se você o encontrar, chama-se Marc, não soube seu sobrenome.) Parece estudante de Direito. Não é o meu tipo.
Perdão, senhorita, quer que eu a acompanhe, perdão, senhorita, posso falar com você, boa noite, como vai, aonde vai tão depressa, ou qualquer coisa no gênero, me diz ele.
Não gosto de ser abordada. Isso não traria problemas, se homens e mulheres fossem iguais, se as relações entre os sexos fossem recíprocas. Mas atualmente esse não é um meio como um outro de se conhecer alguém, porque é um meio que coloca de início a mulher como objeto sexual. A maioria dos homens que abordam uma mulher não esperam que ela tenha manifestado o menor desejo, que tenha sustentado seu olhar, nem mesmo que os tenha visto. Começam freqüentemente a falar antes de ter visto seu rosto, chegam e dirigem-se a ela por trás.
Era, como quase sempre, sua escolha e não a minha. Primeiro, não respondi - ele me era indiferente. Depois ele insistiu, seguindo-me. A força de sua insistência juntou-se à da minha solidão, e respondi. Percebi que falar me dava prazer. Queria companhia. Seu desejo era a priori bem diferente, afirmou ele mais tarde. Tratava-se de uma decisão que não foi modificada nem por minha atitude geral, nem por minhas afirmações, nem por minha recusa física.
Quando ele propôs tomarmos um café, aceitei, prevenindo-o que o deixaria meia hora depois (porque eu só previa um alívio verbal para minha solidão e não tinha a impressão que uma amizade nasceria deste encontro).
Então começou a escalada. "Conheço um café um pouco mais adiante", diz ele. Na verdade, é ao seu carro que me leva, abre-me a porta sem perguntar minha opinião.
É o primeiro indício de sua vontade de poder. Isso deveria ter bastado para que eu me recusasse a entrar no carro. Infelizmente as mulheres estão habituadas a não se chocar com a pressão continuamente feita pelos homens sobre elas. Eu não notava que, entre esse gênero de abuso - constante - e o estupro, só há uma diferença de grau, não de natureza.
Até aqui eu ainda estava formalmente livre. Digo formalmente, porque, se eu me tivesse recusado a entrar no seu carro, isso teria provado que eu não poderia fazê-lo sem risco. Se uma mulher não tem escolha entre privar-se de companhia ou aceitar uma companhia com o risco de que sua liberdade não seja respeitada, essa mulher não é livre.
Comecei por recusar a subir. Disse que preferia ir a um café ali por perto, que era mais simples, etc.
Espontaneamente, não exprimia a razão verdadeira de minha recusa. Fazia de conta que o carro representava apenas uma complicação prática.
Utilizava em realidade um código implícito, compreendido por meu interlocutor, pois ele me respondeu: "Mas não é possível, não me diga que você está com medo. Não vou te comer", etc.
Eu tinha afirmado o risco da agressão sem mencioná-lo, e ele o tinha mencionado, negando-o. Todos os dois, eu por voluntarismo, ele por chantagem, fazíamos de tenta que ignorávamos a situação social da mulher como objeto sexual, quer dizer, a possibilidade de que sua liberdade não seja respeitada.
Quando eu lhe disse que não era cômodo tomar o carro, eu falava como uma mulher livre que só se coloca um problema material. De fato, sem ter plenamente consciência, eu recusava a situação sob dois aspectos: de um lado, a possibilidade de que esse homem abusasse de mim (como tão justamente se diz) no carro; e, por outro lado, o significado social de meu gesto, se eu entrasse no carro. Este significado faz parte de um código implícito, e é por isso que é tão difícil de ser analisado.
Eu temia que no fundo minha atitude fosse considerada como um convite sexual, quando não era o caso. Ou, mais exatamente, eu temia que o homem fingisse interpretar minha atitude como um convite sexual para se justificar mais facilmente de uma agressão eventual (situada a qualquer nível), negando assim seu caráter de agressão.
Este medo obscuro exprimia uma realidade social habitual. As mulheres nunca são realmente consideradas vítimas da agressão masculina, mas cúmplices. Paradoxo absurdo, destinado a negar a realidade da opressão das mulheres. Se uma mulher vai ao quarto de um desconhecido e aí é estuprada, dir-se-á que ela tinha "procurado", que o fato de entrar no quarto era uma aceitação implícita do que poderia acontecer. Levando ao extremo, finge-se crer nesse contra-senso: que uma mulher possa gostar de ser violada.
Todas essas idéias repousam sobre o mito da natureza passiva da sexualidade feminina, mito destinado a justificar um papel social que é imposto às mulheres. "Uma mulher que não diz nada consente. Uma mulher que diz não quer dizer talvez, uma mulher que diz talvez quer dizer sim." Dito de outra maneira, seja a mulher neutra, resistente ou hesitante, ela está sempre de acordo. Quer dizer que a liberdade das mulheres é totalmente negada, que lhes é negada toda autonomia sexual. O que ela exprime não é ouvido, mas percebido em função do desejo masculino. Num caso extremo (mas de fato normalmente), um desejo positivo de sua parte é percebido como ambíguo, como um desejo recusa, uma submissão e não uma escolha.
Sobre isso, uma amiga contou-me uma história exemplar. Ela estava com um homem com quem ela queria fazer amor, e esse desejo era compartilhado. Mas aparentemente seu desejo era um obstáculo para a realização dos desejos de seu companheiro. Era preciso haver um simulacro de recusa. Assim ele a agrediu, bateu, injuriou, gritando: "Você tá gostando, suja, tá gostando!" Não era preciso que essa mulher tivesse vontade de fazer amor, não, era preciso que ela tivesse vontade de ser violada. Seu desejo devia ser transformado em submissão a esse homem como a tantos outros cujo prazer é indissociável de uma vontade de dominação.
Voltando à minha história, recusei, portanto, a princípio, subir no carro, sob vários pretextos, na realidade para não oferecer a meu interlocutor essa arma dupla: a possibilidade material de abusar de mim num grau qualquer e o pretexto de minha cumplicidade.
Mas o código que eu tinha utilizado, quer dizer, o pretexto material, implicando a ausência de obstáculos morais, implicando, portanto, minha liberdade, se voltava contra mim, uma vez usado pelo homem. Tendo compreendido perfeitamente o sentido real de minha resistência respondeu a essa objeção subjacente invocando ele também minha pretendida liberdade, o que era negar o fundamento de minha objeção. A ilusão da liberdade em uma mulher (a negação de sua opressão) torna-se para a sociedade um meio de chantagem contra ela, para mantê-la em seu estado de opressão. Sua chantagem constituía em ridicularizar meu medo de ser tratada como objeto sexual. "Não vou te comer", quer dizer são medos de menininhas. Os homens não são "maus". Dito de outra maneira: você é livre. Se você entra no meu carro, você realiza essa liberdade. Se você não entra, você está se privando desta liberdade, obedecendo a tabus ridículos.
No fracasso das relações entre homens e mulheres, as mulheres são sempre as primeiras a serem acusadas. Se elas recusam relações alienadas, são consideradas como inocentes (quer dizer ridículas) ou pequeno burguesas, e se elas são vítimas de relações alienadas, elas ainda são culpadas, porque deveriam ter desconfiado. A esse propósito, o rapaz em questão (chamemo-lo JH) censurou duas vezes minha ingenuidade: antes do estupro, porque eu era boba de não querer subir no seu carro, e depois do estupro, porque eu deveria ter desconfiado.
É preciso verdadeiramente denunciar a chantagem masculina que consiste em chamar "pudor ofendido" ou "repressão" as reações femininas a uma agressão disfarçada de "liberdade sexual". Entre muitos pseudo-revolucionários, principalmente, a liberdade sexual se confunde com a liberdade exclusiva dos homens, às custas da das mulheres. É muito comum que os estudantes que se dizem revolucionários vaiem as estudantes, sob o pretexto que são "pequeno-burguesas". Nunca os vi agredir dessa maneira "pequenos-burgueses." As mulheres, por causa de seu sexo, são mais agredidas e ridicularizadas que qualquer homem por sua cor. Não há pior racismo que o "sexismo". Quanto às reações de "pudor ofendido", elas não são mais que a expressão de uma humilhação real. devida a um desprezo real. Isso nunca é dito.
O estágio primário da emancipação de uma mulher é de fazer de conta que é livre ou, mais exatamente, é tentar sê-lo é experimentar a realidade até que a ilusão se desfaça.
Acreditei no discurso hipócrita desse rapaz, acreditei que estava livre, porque eu queria sê-lo, queria poder entrar no carro de um desconhecido só com a intenção de ir tomar um café e que essa intenção fosse tomada pelo que ela era.
Nós chegamos ao Châtelet, e lá JH entrou numa rua de grande circulação. Como eu me inquietava quanto ao lugar onde íamos, JH me repetiu que ele conhecia um café um pouco mais adiante. No caminho ele começou a jogar o "jogo da verdade", ao qual me prestei sem prever o uso (entretanto já de se esperar) que faria dele. Naturalmente ele começou a fazer perguntas de ordem sexual que no princípio não me encabularam, mas depois se tornaram francamente obscenas. Era o segundo indício de sua capacidade de agressão. Era em si uma agressão sexual. As palavras que despem dando nomes são uma maneira como uma outra de se apropriar do corpo do outro. Isso também é estupro. Aliás, foi o que eu lhe disse, crendo-me obrigada a explicar minha recusa em responder. (A quantas explicações estão condenadas as mulheres para tentar vencer a má fé masculina?)
Nesse momento notei que esse homem não me deixaria "tranqüila". Mas nem um instante, até o último momento, pensei que ele quisesse realmente me violar. Disse-lhe, sempre esses pretextos, que começava a ficar tarde e que eu preferia voltar imediatamente. Pedi-lhe que me deixasse na próxima esquina. Ele disse que já era tarde demais, que não dava mais jeito de parar, que já estávamos chegando. Parou num lugar qualquer em Joinville, em frente a uma casinha bastante isolada das outras. Entrei com ele, pedindo-lhe que me levasse de volta rapidamente.
Que eu tenha sido ingênua não vem ao caso.
Pôs alguns discos, sentamo-nos diante da mesa, ofereceu-me uísque. Falamos indiferentemente de filmes e discos. Pôs a mão no meu joelho. Retirei-a. Recomeçou. Nova recusa. "Por que você não quer? Não quer namorar?" "Não, eu disse, não tinha essa intenção." "Então não devia ter vindo", me respondeu. Fortificado com esse argumento, recomeçou cada vez mais. Fiquei com raiva. "Bom, bom, me disse, eu paro, mas venha sentar-se na cama, é mais confortável." Sentei-me na cama. Era completamente idiota de minha parte. Talvez eu tivesse essa reação que se tem diante do perigo, fingindo que ele não existe para conjurar o malefício. Parecia-me que um medo claramente expresso ou recusa demais poderiam excitar ainda mais sua vontade de poder. De toda maneira, dada sua decisão, isto nada mudaria. Logo que sentei na cama, ele me derrubou segundo o método clássico e procurou beijar-me à força. Debati-me, levantei-me, peguei minhas coisas e fugi para a porta. Logo ele me alcançou, carregou-me nos braços e jogou-me na cama. Beijou-me de novo à força (não menciono os gestos anexos). Então mordi-lhe o polegar. Meus dentes se enfiaram interminavelmente. Levantou-se furioso e contemplou seu dedo aberto e sangrando.
- "Suja! Por que você me fez isso?"
Intelectual como sempre, expliquei que estava só me defendendo. O que não consigo compreender é por que a gente insiste em responder à má fé.
"Você não tem o direito, respondeu-me. Afinal, não te fiz nada. Não te machuquei.”
Queixava-se de sua dor, enquanto me sacudia e me batia. Depois ameaçou-me mais ou menos nesses termos: "Agora, minha pequena, se você tenta me resistir um só segundo, te arranjo. (Levo um murro no queixo.) Posso muito bem te furar a bochecha com meu cigarro. Posso te desmaiar. Sou o mais forte", etc.
Nesse momento senti-me desesperada. Pensei que ia desandar a chorar. Ele disse algo como "vê se não começa a choramingar agora, que não vai servir pra nada". Retomei-me e, em desespero de causa, tentei pregar-lhe a moral. Tentei também fazê-Io compreender que não era, "interessante" para ele fazer amor nessas condições. (Acho particularmente abjeto que uma mulher deva ter que se preocupar com o interesse de um homem que quer violá-la para persuadi-lo a que não o faça.)
JH respondeu-me que tinha decidido me "possuir" desde que me tinha visto, e que o faria. Ponto.
Procurei com o olhar no quarto algo que pudesse me ajudar, mas nada vi. Nem mesmo teria tempo de pegar o telefone. Gritar não ia valer de nada, dado o isolamento da casa. Disse a mim mesma que, se eu me debatesse o tempo todo, ele não teria possibilidade física de me violar. Mas pensei que, na pior das hipóteses, estava nas mãos de um maníaco capaz de me matar, e, na melhor, levaria uma surra, que comportaria, além do inconveniente da dor, o risco de ter de me apresentar à minha família tumefeita e coberta de marcas azuis. Seria preciso explicar em que situação me metera ("mas, pobre criança, também que idéia de..." etc.), seria eu quem seria considerada culpada. A vergonha sobre mim.
Tudo o que entrevi em alguns segundos pareceu-me mais terrível que me entregar e esperar que aquilo acabasse. Não queria morrer nem ficar com marcas inúteis. O estupro, de todo jeito, pela violência e pela humilhação, já estava consumado.
Nesse momento pensei no risco - especialmente naquele dia - de ficar grávida. Disse-lhe. Curiosamente, respondeu-me:
- Mas é claro que vou tomar cuidado, não sou um menino!
Aparentemente ele pensava que tinha ainda uma honra a reabilitar a meus olhos, como se em minha recusa pudesse haver o menor lugar para sua vantagem.
O caso durou trinta segundos. Um amigo a quem contei a história me perguntou, para minha grande surpresa, se eu tinha gozado! O que parece provar que para ele não havia uma diferença profunda entre violar e fazer amor. Esse comentário vale para todos os maridos que se queixam da frigidez de sua mulher e continuam a exigir o cumprimento do "dever conjugal “. A forma habitual de relações sexuais entre nossos avós e nossas avós era pura e simplesmente o estupro.”Cada vez era um suplício", dizia minha avó à minha mãe, que aprovava a comparação. O estupro, conjugal ou não, é ainda a forma típica, realizada num ou noutro nível, das relações entre os sexos.
Ele não "tomou cuidado". Eu lho disse, ele o negou, sempre atento à sua honra. Naquele mês tive um atraso muito grande. Passei muitos dias na angústia, a me perguntar se teria o direito de abortar legalmente naquele caso (não tinha), como poderia provar o estupro (tente... ), etc. Agradeço à sorte, foi só um atraso.
Quando já estávamos vestidos, JH teve a cara de pau de se mostrar decepcionado, perguntou-me se verdadeiramente eu não tinha achado agradável e, quando manifestei - prudentemente - minha intenção de voltar para casa, teve a cara de pau ainda mais monstruosa de me perguntar se eu não queria passar a noite com ele. Sempre essa mesma negação, formulada ou implícita, da realidade do estupro. Sá sentia ódio por ele e uma vontade terrível de brigar. Foi nesse momento que mais sofri, tendo que conter em mim tudo o que queria cuspir-lhe na cara, sempre prisioneira da chantagem da lei do mais forte. Refugiando-me irrisoriamente na intelectualização, tentei "instruir-me". Fiz-lhe perguntas sobre ele. Deu-me a informação contraditória de que sempre agia assim com as moças, elas estejam ou não de acordo, mas que "a maioria aceitava". Depois me avisou com o ar contente de si que em todo caso manteria a promessa de levar-me de volta. No carro justificou (?) o estupro pela "inferioridade natural das mulheres". Só abria a boca para fazer declarações cada uma mais acabrunhante que a outra. Quando me deixou em Paris, eu tinha tido de tal maneira que reprimir minha agressividade que, paralisada, nem consegui bater a porta do carro.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Seminário contra lesbofobia


O núcleo de Viçosa da MMM, em parceria com o grupo universitário LGBT Primavera nos Dentes, realizará no dia 19 de setembro o seminário "ELAS: rompendo a invisibilidade e o preconceito". O seminário que contará com a contribuição de militantes da MMM e da ALÉM (Associação Lésbica de Minas) discutirá a realidade das muheres lésbicas e as formas de combate ao preconceito e à opressão vivenciados por elas.
Tudo isso vai acontecer na Universidade Federal de Viçosa, sala 06 do CEE às 14h.
Logo após, vai rolar uma baladinha lá na Ponto G.

Esperamos todas lá!

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Jornal da Ação de 2010!

Meninas!
O jornal da ação de 2010 já está pronto!!!
Nos próximos dias deve chegar nos estados, mas podem acessar também pela página da MMM!
www.marchamundialdasmulheres.org

Seguiremos em marcha até que todas sejamos livres!!!

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Encontro da Batucada de Mossoró


Neste último sábado, 15, a Batucada Feminista de Mossoró realizou encontro com a participação de 25 meninas.
No encontro debatemos sobre a 3a Ação Internacional da Marcha Mundial das Mulheres que acontecerá em 2010. Pela manhã fizemos uma oficina de ritmos e ensaiamos alguns deles com palavras de ordem. À tarde vimos o vídeo da grande ação de 2005. Depois lemos e discutimos os textos sobre os 4 eixos da Ação 2010: Violência contra as Mulheres; Autonomia Econômica das Mulheres; Bens Comuns e Serviços Públicos e Paz e Desmilitarização. Conversamos ainda sobre a ação aqui no Brasil, que será uma Marcha de 10 dias, entre Campinas e São Paulo.
Sobre as espectativas para esse grande evento, destacamos: a ansiedade para a chegada do dia 8 de março, quando será dado início à grande Ação 2010; a preparação física para garantir a tranquilidade durante a grande caminhada em todos os dias; Divulgar no cotiadiano a Marcha Mundial das Mulheres; todas as pessoas conhecerem os motivos que levou cada uma das mulheres estar presente nesse grande momento de 2010; e, enfim, participar do evento tornando visível e irreversível nossa luta e irreverência.


Seguiremos em Marcha até que todas sejamos Livres!!!

quinta-feira, 30 de julho de 2009

Nota de repúdio!

Nota de Repúdio.


Nós, mulheres representantes de diversos movimentos sociais, repudiamos a Editora Solcat Ltda pela publicação do guia “Rio for Partiers” e a decisão do Juiz José Luis Castro Rodriguez, da 21ª Vara Federal, que negou o pedido da Embratur encaminhado pela Advocacia Geral da União para que esse guia fosse retirado de circulação. O guia estimula a prostituição classificando as mulheres cariocas em diferentes tipos e instruindo o leitor sobre como garantir relações sexuais com elas. Dentre os tipos classificados encontram-se mulheres que são consideradas “máquinas de sexo” e o guia explica como identifica-las.


O referido guia reduz as mulheres à mercadoria, um produto a ser comprado e usado por turistas em sua visita ao Rio de Janeiro. Na venda de sexo, o comprador, homem, se encontra numa posição de poder, na medida em que a mulher é considerada apenas um objeto, para a satisfação exclusiva do seu comprador. Nesta posição de submissão, essas mulheres são expostas a diversos atos de violência.

Sabemos que muitos países têm a prostituição como estratégia de desenvolvimento pelo alto lucro gerado. Repudiamos a existência do turismo sexual e consideramos vergonhosos paises que estimulam este “turismo” onde se naturaliza a compra e venda de mulheres em prol do lucro de multinacionais, companhias aéreas, de turismo e até mesmo os governos.

Reconhecemos a postura da Embratur como correta e repudiamos a atitude machista do Juiz José Luis Castro Rodriguez em negar a retirada de circulação do guia sexual que representa a mercantilização, exploração das mulheres e incentivo à submissão das relações humanas ao dinheiro. Nós mulheres organizadas lutamos diariamente contra a mercantilização de nossos corpos e nossas vidas. Reafirmamos: somos mulheres e não mercadoria!

Sindicato dos Servidores das Justiças Federais - Sisejufe RJ

Marcha Mundial das Mulheres

Juventude do PT-RJ

Comissão Defesa Direitos da Mulher da ALERJ

Articulação de Mulheres Brasileiras

Movimento de Mulheres de Cabo Frio

CEDIM

Secretaria de Mulheres do PT-RJ

Secretaria de Mulheres do PCdoB

União Brasileira de Mulheres

União Estadual dos Estudantes

DCE PUC-Rio

SASERJ

Rede Nacional Feminista de Saúde, Direitos Sexuais e Direitos Reprodutivos

Casa da Mulher Trabalhadora - CAMTRA

União Nacional dos Estudantes

Secretaria da Mulher Trabalhadora CUT-RJ

quarta-feira, 29 de julho de 2009

Mulheres no volante!

O núcleo da MMM de Juiz de Fora/MG participa da organização do Mulheres no Volante, um Festival de Cultura Feminista!!!
Olhem que legal: http://mnv2009.wordpress.com/
Será que a gente consegue organizar em outras cidades???

domingo, 26 de julho de 2009

Da onda feminista: "I choose my choice"

Existem vários blogs de mulheres que escrevem seus textos com uma perspectiva feminista. Esse texto "Da onda feminista 'I choose my choice' foi escrito pela Marjorie, do blog http://marjorierodrigues.wordpress.com/.
Tem vários elementos do debate que fazemos sobre mercantilização do corpo e da vida das mulheres. Aproveitem!

Da onda feminista “I choose my choice”
Julho 24, 2009
Existe um episódio de “Sex and the city” que eu acho muito emblemático. É uma pena não tê-lo achado no You Tube — então vou ter de fazer a chatice de narrá-lo.

É quando Charlotte (para quem nunca viu a série, é a personagem que encarna o estereótipo da mocinha no aguardo do príncipe encantado. Afinal, as personagens de SATC não são redondas. São tipos. Alguém pode — e com certeza vai — me contestar, mas acho que muito raramente alguma delas fazia algo que saísse do tipo que deveria representar) anuncia para as outras três que está pensando em largar o emprego de curadora numa galeria (um emprego de que ela gostava muito, diga-se de passagem), já que vai se casar dentro de alguns meses e quer ter um filho. A gravidez nem veio ainda, mas ela quer garantir que irá se dedicar ao bebê em tempo integral. Diante da cara de estranhamento das outras, Charlotte diz que também adoraria ter tempo para se dedicar a coisas como cursos de cerâmica e bordado. As caras surpresas continuam. Ela então estufa o peito e acrescenta, claramente inventando isso na hora: ”talvez também algum trabalho voluntário! Tem uma organização que trabalha com crianças com câncer…”.

No dia seguinte, Miranda (o estereótipo da executiva workaholic sem coração) está se arrumando para o trabalho, quando recebe um telefonema. É Charlotte, puta da vida: “não gostei nem um pouco da maneira como você me reprimiu ontem”. Miranda: “hã?”. Charlotte, mei’ histérica: “eu vi como você olhou para mim quando eu disse que estava pensando em abandonar a galeria. Você estava me julgando, como se eu fosse uma imbecil! Mas eu vou te falar uma coisa: o feminismo era pela liberdade de escolha!”. Miranda: “feminismo? Quê? Charlotte, são 7 horas da manhã”. Charlotte continua, já aos berros: “É isso mesmo! Eu escolho as minhas escolhas! Eu escolho as minhas escolhas!”. E é muito forte a cena. Ela repetindo mil vezes, a boca colada no telefone: “I choose my choice! I choose my choice!”

Só que aí… Pá. Vem o arremate da cena. Que é o que eu acho emblemático. Calma, Miranda responde: “OK. Só não venha dizer que eu não avisei, caso Trey [o noivo] te deixe e você, com uma mão na frente e outra atrás, perceba que tudo o que tem é uma tigela de cerâmica com o nome dele”. Eu acho essa fala fantástica porque contextualiza a escolha. Mostra que o contexto em que uma determinada escolha é tomada a dota de um significado particular.

Veja que a Miranda não condena a escolha em si (no final do episódio, ela mesma liga para o chefe fingindo que está doente só para ficar em casa assistindo a um programa de culinária. Algumas temporadas depois, ela decide não abortar, se casar e se mudar para o subúrbio. Ou seja: também ela tem o desejo de se dedicar a um filho). Miranda apenas se preocupa porque, tomada num contexto de diferença de poder entre homens e mulheres, a escolha de Charlotte pode colocá-la numa posição de vulnerabilidade. Econômica e emocional. Vulnerabilidade que a Charlotte não escolheu, mas que pode vir de brinde com sua escolha. Logo, não adianta ser sujeito na hora de escolher, se o contexto te coloca numa posição subordinada depois. O féladaputa do contexto pode te transformar em vítima da sua própria escolha.

Apesar da SATC ter um monte de defeitos e, ao longo das temporadas, ter ficado cada vez mais machista, eu gosto muito desse episódio — e sempre achei que estivesse na cara que a razão está com a Miranda. Mas, pelo visto, a interpretação de muita gente foi diferente. O “I choose my choice!” acabou virando uma espécie de bordão nos EUA. Ele passou a representar a seguinte linha de pensamento (que, ei, obviamente é anterior a SATC, não pensem que estou dizendo que o episódio gerou o raciocínio):

Se eu escolhi fazer tal coisa, o ato de escolher faz de mim automaticamente um sujeito.

Por exemplo: “se eu escolhi ser prostituta/stripper/atriz pornô/whatever, se eu fiz isso porque quero, então eu não sou uma mulher objetificada. Eu sou sujeito das minhas ações e quem disser que estou numa posição de passividade ou vulnerabilidade está errado. É paternalista dar a entender que eu sou burra, não sei o que faço ou sou apenas um joguete do patriarcado”.

Eu acho esse ponto de vista TÃO perigoso. Primeiro, porque reduz o feminismo a essa hiper-relativização: I choose my choice, cada um com sua escolha, pronto e acabou, ninguém mete o bedelho na vida de ninguém. É mais ou menos como o pessoal que, numa leitura super torta de algumas obras da antropologia, sai dizendo por aí que a gente não pode condenar a mutilação genital feminina ou a burca ou o infanticídio ou seja lá o que for, porque “assim é a cultura deles”. Ou “assim é a religião deles”.

Segundo, porque coloca a pessoa que tenta contextualizar as coisas na posição de vilão. “Vocês é que estão me reduzindo, ao dizer que sou manipulada”‘. O que é uma acusação simplista e tacanha. Contextualizar a escolha, dizendo que ela pode levar a uma situação de vulnerabilidade, não é negar o fato de que escolher é uma ação. Nem dizer que o autor da escolha não pense por si. Está-se apenas inserindo esta escolha em um mundo e, então, refletindo quanto à influência do mundo sobre a escolha e o efeito dessa escolha no mundo.

Uma das coisas que eu sempre digo (aliás, quantas mil vezes eu já escrevi isso no blog? Vocês já devem estar de saco cheio) é que nada acontece no vácuo. A camiseta “100% branco” não seria racista no vácuo. Mas, num país com histórico de escravidão e discriminação, é. Outro exemplo: Se o “lingerie day” não tivesse acontecido num mundo patriarcal, em que as mulheres ainda são vistas como enfeites para o deleite dos homens; se não houvesse uma esmagadora pressão para que nós sejamos bonitas e sexies e agrademos os homens; se não houvesse tanta gente que ainda pensa que o certo é que homens mandem e mulheres obedeçam… Bem, querid@s, então aí sim a campanha não seria machista. Fora de contexto, seria mesmo pura diversão.

Mas ela aconteceu num mundo onde tudo isto é realidade. Onde já há uma constante apresentação de corpos femininos como objeto sexual somente (inclusive desmembrados, instrumentalizados, reduzidos apenas às partes erógenas: as únicas que “importam“) — o que induz a uma desumanização da figura feminina. Para cometer violência contra alguém, é necessário coisificá-lo, desumanizá-lo, torná-lo irremediavelmente distante de você. Daí o bombardeamento de imagens que reduzem a mulher a um corpo . A um ser humano incompleto. E não há paralelo para os homens. Pelo menos não o homem ideal, branco, hetero, classe média. Com o corpo do homem gay ou “feminilizado”, a coisa já é diferente. É por isso que a gente diz que, quando há objetificação numa ponta, há violência doméstica e estupro na outra. Logo, embora escolher participar da brincadeira seja uma ação (e eu não acho que nenhuma das meninas que participaram sejam burras ou não saibam o que estão fazendo), isso acaba te jogando numa posição de vulnerabilidade. Posição que você não escolheu, mas vem de brinde.

Voltemos à Juliana Paes. Ela sem dúvida escolheu “fazer da bunda o seu logotipo”, como disse o Marcelo Tas. E sem dúvida tirou vantagens com isso — dinheiro, fama, whatever. E aí a posição que ela ocupa acaba sendo retratada, para as demais mulheres, como uma posição de poder. Olha como ela é poderosa. Só que é um poder restrito. Vulnerável. No dia em que a bunda cair, já era. No dia em que ela parar de despertar o desejo masculino, já era. E, uma vez tendo sido a bunda, sempre será a bunda. Mesmo que ela queira se distanciar dessa imagem, mesmo que queira demonstrar outros tipos de talento, haverá Josés Simões e Marcelos Tas dizendo a ela: “não, você não pode. Não era você quem mostrava a bunda? Como é que você quer que te levemos a sério?”. Juliana acaba vítima da sua escolha.

Se você aderiu à campanha lingerie day, você assinou embaixo de uma campanha com proposta machista. Cabô. Quando eu coloco meu nome num abaix0-assinado, quando me junto a uma passeata, eu estou engrossando o caldo. Não adianta dizer: “ah, mas eu participei por outros motivos”. Ou: “eu quis participar, então, se eu sou sujeito e não objeto, isso deixa de ser machismo”. O fato do objeto ter escolhido ser objeto não elimina o contexto de objetificação.

Eu não posso botar nas coisas o significado que eu bem entender e achar que, se eu ressignifiquei individualmente, isso automaticamente passa a valer no mundo. As ressignificações são sempre coletivas — portanto, lentas. É preciso que o mundo mude para que o significado e o efeito da escolha também mudem.

Como as ressignificações têm de ser coletivas para surtirem alguma transformação efetiva, é por isso que nós estamos o tempo todo nesse esforço de desconstrução das coisas. Convidando os outros a reparti-las em pedaços, esmiuçar. Entender o que está errado para daí construir uma proposta nova, etc.

Quando faço um post dizendo “olha que comercial machista”, por exemplo, não estou querendo ensinar ninguém. Não estou me colocando numa posição superior, como se eu estivesse livre de influências patriarcais e minha missão no mundo fosse evangelizar os pobres coitados que continuam cegos, marionetes do sistema. Eu estou é fazendo um convite: “que tal nós (todas pessoas que nasceram e cresceram dentro de um patriarcado e não conhecem outra realidade) tentarmos descodificar, juntos, essa mensagem?”. Porque eu sei que, sozinha, eu não consigo mudar porra nenhuma.

Só que o problema de desconstruir as coisas é que a gente vai derrubando, também, os próprios paradigmas. A gente abandona certezas, sai da zona de conforto — e não entra em outra. Pelo contrário: o que se oferece a partir daí é um desafio. Um problema a ser resolvido. E é claro que isso é desesperador.

Me explico. Eu sempre digo que “Eros e Civilização”, do Marcuse, e “A sociedade do espetáculo”, do Guy Debord, são os livros que mudaram a minha vida. Acho que eu não os teria entendido não fosse por uma aula em que o professor mastigou a mensagem: você pensa que é livre, mas não é. Você vive é um simulacro de liberdade. Ele não disse nessas palavras, claro. E eu jamais seria capaz de repetir ou mesmo resumir a aula aqui. Mas a coisa descambou para um quase interrogatório. Os alunos dizendo: “mas, péra aí, e quando eu faço X? E quando eu escolho Y?”. E lá ia o professor mostrar onde o Marcuse apontava que não, bobinho, também isto não é um ato completamente livre. Foi assim até os alunos ficarem sem exemplos. Sem ter mais o que perguntar. Todo mundo deprê. Eu saí da aula ARRASADA. Com vontade de me jogar na frente de um carro.

Mesma coisa com “O segundo sexo”. Você acha que eu fiquei feliz ao terminar de lê-lo? Tipo: “eba! Agora vou ser feminista e fazer um monte de amiguinhas”? NÃO, PORRA, EU FIQUEI TRISTE PRA CARALHO! Desmoronou tudo: o mundo não é para mim. Olha o tanto de mitos e restrições que me aplicam só porque nasci com dois cromossomos XX. Isto significa que terei de me esforçar em dobro para conseguir metade do reconhecimento de quem, por mero acaso, nasceu XY. É ou não é para ficar de bode?

Vocês acham que eu gosto de reclamar? Vocês acham que eu gosto de ficar apontando machismo aqui, ali, em todo lugar? Vocês acham que eu gosto de constatar que nós não somos livres? Claro que não. Eu queria ser livre de fato, oras. Eu queria poder estar falando de outra coisa. Eu não queria estar passando raiva, não.

É por isso que eu gosto tanto da metáfora da colher de chá: “estamos aqui tentando esvaziar o oceano com colheres de chá”. Porque ela carrega esses dois lados. É ao mesmo tempo uma motivação e o reconhecimento de que há uma imensidão de trabalho a ser feito. Maaaaas… Pode ser que a gente não consiga nunca. Pois é. É bonito e, ao mesmo tempo, deprê.

Vou cagar psicologia barata aqui, mas tenho a impressão de que as mulheres do ”I choose my choice” estão como naquela fase de negação dos doentes terminais. Dói reconhecer a própria falta de poder. Dói perceber que se tem uma posição inferior na sociedade. Dói perceber que a nossa esfera de ação é limitada. Aí uma das saídas é enganar a si mesma, fazendo um esforço de abstração para transformar vulnerabilidade em não-vulnerabilidade. Passividade em ação.

(Já tô vendo que essa minha frase vai causar alguma polemiquinha, mas é a interpretação que eu consigo fazer no momento. Nunca custa repetir que nada aqui é definitivo, tudo é transitório, etc)

O poder feminino (pôr-se como objeto a la Juliana Paes) é um falso poder. E o poder feminista é algo que ainda não existe. Então tenho a impressão de que as mulheres do “I choose my choice” se ressentem porque acham que estamos tentando tirar algo delas. Queremos retirar delas a nesguinha de liberdade que elas acham que têm para oferecer-lhes um projeto de liberdade que pode nunca ser concretizado.

Eu sei que soa feio assumir que contribuiu para o patriarcado. Eu sei que é feio parecer passivona. Mas o fato é que, apesar de pensantes e inteligentes, somos tod@s human@s. Vocês lembram do meu post sobre depilação? Se não lembram, assumo aqui de novo: eu jamais sairia de casa de saia, se minha perna não estivesse depilada. Não teria coragem de fazer sexo se minha virilha não estivesse depilada. Não é porque eu não goste de mim com pêlos, é uma questão de costume. Mas é que eu tenho medo de chacota. É bobo, eu sei. A mensagem patriarcal me subiu à cabeça. Também já fiz de tudo para agradar namorado, como se o contentamento dele estivesse acima do meu. Já agi como se sexo fosse uma maneira de conseguir o que eu queria. Enfim, já fiz N coisas só porque “é assim que as mulheres devem ser”. E continuo fazendo. Às vezes consciente disso, às vezes não. Mas assumo: EU SOU UMA PASSIVONA, em muitos aspectos. Desconstruir isso é um processo. Lidar com o fato de que não sou livre o quanto já pensei que fosse ou gostaria de ser, também.

PS – E, mesmo depois de passar horas escrevendo isso aqui, eu nunca consigo destrinchar as coisas tão bem quanto ela.