terça-feira, 10 de maio de 2011

A arte de insultar os outros


*Por Caroline Bernardo

A maioria dos comediantes, principalmente os de stand up, se utilizam das diferenças entre as pessoas para ganhar fama e fazer piada. Se você não está entendendo o que estou dizendo é simples: a moda agora entre os comediantes mais famosos é ser politicamente incorreto. Uma pessoa como Rafinha Bastos, Danilo Gentili e muitos outros tem seus roteiros de show de Stand Up baseados nos principais problemas sociais e principais precipícios que há nas relações sociais.

Ir a um show desses e achar graça demonstra o que a sociedade realmente acha sobre gordos, negros, homossexuais, pessoas com alguma deficiência. Isso significa que o roteiro desses artistas é baseado em preconceitos que a sociedade finge que são inexistentes, mais a verdade é bem distante disso são piadas: homofônicas, machistas, xenofóbicas, com intolerância religiosa. Tradução = ao que me parece ser politicamente incorreto é a moda e fingir que esses preconceitos não passam de uma simples piada e não são arraigados na sociedade é outra grande piada.

Mais dessa vez foi muito além da sandice original, Rafinha Bastos em um dos seus últimos shows fez apologia ao estupro. Segue algumas das frases do show:

"Homem que fez isso [estupro] não merece cadeia, merece um abraço."
"Tá reclamando do quê? Deveria dar graças a Deus. Isso pra você não foi um crime, e sim uma oportunidade."

Aparentemente no show apenas ele achou graça da piada em relação ao estupro, e aparentemente somente ele não entende a violência que principalmente as mulheres sofrem com o abuso sexual. Ele gostaria de ser estuprado? Ele acharia que se um cara estupra-se ele deveria levar um abraço? Ou se alguém estupra-se um filho ou filha dele ?

Ridiculamente ridículo, mais parece que não é de hoje que os comediantes do Santd Up costumam fazer apologia ao estupro, em 10 de novembro de 2009 um ator global/malhação e comediante-Murilo Couto disse a seguinte frase pelo twitter: Apagão de ontem: quem não estuprou ninguém perdeu a chance" ( se referindo ao apagão de São Paulo). Na época ele sofreu severas retaliações da grande mídia. Mas porque o Rafinha Bastos não pagou o mesmo preço de propaganda negativa quanto a sua imagem? Simplesmente porque ele acaba de ser eleito pelo jornal norte-americano The New York Times como o homem mais influente do mundo no Twitter.

Digo somente que a arte de insultar os outros não deveria dar dinheiro a ninguém, e enaltecer crimes como estupro deveria ter pelo menos uma sanção financeira. Absurdo!

Maiores informações em:

*Caroline Bernardo, estudante de Direito da UFPA, Diretora de Mulheres pelo campo de OPOSIÇÃO do DCE- Ufpa. http://carolinebernardo.blogspot.com/

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Cenas machistas do próximo capítulo

"Em muitos países do mundo a garota
Também não tem o direito de ser.
Alguns até costumam fazer
Aquela cruel clitorectomia.

Mas no Brasil ocidental civilizado
Não extraímos uma unha sequer
Porém na psique da mulher
Destruímos a mulher."
Tom Zé

Nunca foi um problema para mim dizer que gosto de novela. Sim, gosto. É um momento onde esvazio a minha cabeça e não penso em nada, coisa difícil em um mundo com tanto trabalho e luta pela frente, como o mundo de hoje em dia. Não é por isso que deixo de concordar com o papel alienante que as telenovelas cumprem na sociedade brasileira, e como elas reproduzem, de forma estereotipada e exagerada, as opressões e as explorações que afetam as mulheres brasileiras diariamente. Por isso não deveria me assustar com o André (Lázaro Ramos), de Insensato Coração, a nova novela das oito da Globo. Mas insisto em me indignar.

O André é o cara que, segundo o autor da novela, todas as mulheres gostariam de passar uma noite. De um jeito sedutor, ele conquista todas as mulheres que deseja, e todo capítulo ele leva uma para seu apartamento. Essas cenas todas terminam com as mulheres loucas para vê-lo mais uma vez, ou com elas torcendo para ele pedir seus telefones. Mas ele não pede, e "honestamente", "joga limpo" com elas, dizendo que não repete transas. Após isso, aparecem cenas dele contando vantagem com os amigos, sobre como as mulheres se derreteram com ele ou como a mulher X ou Y agora persegue ele, ou não tira ele da cabeça. Ele não quer se relacionar com as mulheres, mas apenas marcar mais um número em seu caderno de anotações.

É triste ver o Lázaro Ramos, ator que sempre admirei por suas interpretações e posições políticas, fazendo um papel tão deplorável. Não só na forma como se refere ou como se relaciona com as mulheres, como se nós fôssemos apenas prestadoras de serviços pontuais a eles e seus amigos homens, mas da forma como enxerga e trata nós mulheres, como verdadeiras prostitutas. Nesta lógica, não interessa o nome da mulher, quem ela é, ou o que ela faz, mas sim que ela ofereça um bom serviço em seu apartamento com vista para o mar na Zona Sul do Rio de Janeiro, e fim. Fim não, porque vejam só como ele é bonzinho, ele paga o táxi da volta para casa das mulheres. Quer relação mais mercantilizada que esta?

A sociedade capitalista consegue naturalizar o abominável. A crítica deste texto não é moralista, mas sobre confusão feita entre ser liberal e ser libertária. Para nós, mulheres femistas, não pode servir um modelo liberal de relacionamento, que nos trate como objeto, pois isso sempre foi assim, historicamente. Nem nos serve mais a velha história dos contos de fadas. O que nos vale, é que nossas relações sociais e sexuais sejam baseadas em valores de solidariedade, e não de reprodução da economia capitalista, em que até as relações sexuais se tornaram mercadoria. Certíssima está a gloriosa feminista Alexandra Kolontai, quando fala da necessidade de praticarmos o amor-camaradagem, baseado no afeto, na liberdade e no companheirismo. Só este porá um fim a servidão das mulheres pelo homens.

Exemplos como estes, e outros muito piores, estão no dia-a-dia das programações televisivas de nosso país, seja em novelas, em reportagens ou em programas de auditório, onde estamos sempre marginalizadas e mercantilizadas. Nossa tarefa não é fácil, mas temos que seguir em frente. Rompendo não apenas com o machismo, pois este é impossível de se romper sozinho, mas também com o monopólio dos meios de comunicação e com a ausência de participação popular na formulação da programação televisiva do nosso país. Reafirmar que, para mudar a vida das mulheres, uma outra comunicação inclusiva e libertária se faz urgente, pois só mudando o mundo que mudamos as nossas vidas.

*Talita São Thiago Tanscheit é estudante de Ciências Sociais da PUC-RIO e militante do Coletivo de Mulheres da PUC-Rio, da Marcha Mundial das Mulheres e da Kizomba Lilás.

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Um convite a ser mais livre

“Livre” é um adjetivo usado pra qualificar e definir, por exemplo, a cultura, a música, o trabalho, o mercado, a associação, o software, as relações, os povos, as pessoas…
Dar mais conteúdo ao “livre”, articulando vários aspectos da liberdade é um desafio e tanto, que não é necessariamente interessante pra tudo que se define como livre. O livre mercado dos EUA e das transnacionais, por exemplo, se chama de livre, mas (além de depender – e muito – dos Estados), se baseia na exploração do trabalho dos povos e no controle da biodiversidade e dos nossos territórios.
A “música livre” pode ser mais livre do que só das gravadoras e do ECAD.
O objetivo desse post é tentar contribuir com o debate sobre música livre, especificamente com o processo de construção do festival internacional de música livre, mesmo sendo só uma ouvinte. Assim como eu, tem muita gente que quer que a música livre contribua, ativamente, com a liberdade das mulheres. E por isso, já dissemos em alguns lugares que a música também tem que ser livre do machismo.
E, por que apostar que este – e não outro – processo de construção pode incorporar essa perspectiva, que é feminista?
Primeiro porque no principal movimento que impulsiona este festival (o MPB) tem pessoas, coletivos e bandas explicitamente feministas, ou que apoiam de alguma forma o feminismo. E porque a definição em torno da qual se organiza a proposta do festival se orienta a transformar estruturas marcadas pelo monopólio e concentração de recursos e poder, e a construir alternativas mais horizontais e democráticas. Além de ser um processo construído de forma ampla e aberta. E que é contra hegemônico. E está escrito na convocatória do lançamento que a inclusão das mulheres é um aspecto do festival =)
Tudo isso não significa que o festival vai automaticamente incorporar de forma ativa uma perspectiva feminista, mas é um processo que já tem a faca e o queijo na mão.
O discurso, que já existe, tem que ganhar forma e se transformar em prática.

Mas, por que mesmo???

Primeiro porque a organização da música livre se dá em uma sociedade que ainda exclui e discrimina as mulheres, uma sociedade que é ao mesmo tempo machista, racista e homofóbica. E qualquer iniciativa que a gente tenha nesse mundo, aqui e agora, pode reproduzir, mesmo de forma inconsciente, desigualdades e discriminações que dominam as nossas relações, que são valores hegemônicos.
A gente pode identificar alguns mecanismos machistas desse mundo de hoje e ver como se refletem na música.
  1. Separação do que é trabalho de homem e trabalho de mulher, que a gente chama de divisão sexual do trabalho. É o mecanismo que historicamente exclui as mulheres do mundo público e que faz com que ainda haja uma super desigualdade salarial no Brasil. Mulheres ganham em média 67% do salário dos homens, as mulheres negras ganham menos que as mulheres brancas. Isso também acontece no mundo da música? Operador de luz, de som e holdies costumam ser homens, enquanto as mulheres geralmente costumam fazer maquiagem, cuidar do figurino d@s artistas e ficarem bonitas na porta recepcionando convidad@s. E quem toca bateria e guitarra? Na maioria das vezes, são homens. A gente sabe que não é por ter menos capacidade pra tocar instrumentos (e se você ainda achar isso, olha como você tá equivocado: Anne Paceo, Ellen Oléria, Esperanza Spalding, Some Community…). Então… até tem, mas são poucas mulheres instrumentistas. Por que??? E como muda isso?
  2. Mercantilização do corpo das mulheres – tá presente nas propagandas de cerveja, na indústria do turismo sexual – em qualquer lugar que as mulheres sejam tratadas como mercadoria, julgadas e “valorizadas” a partir do seu corpo. E no mundo da música? Tem uns grupos musicais que tocam no Faustão em que o único espaço da mulher é dançando de shortinhos, e tem que ter corpão. Muitas meninas que tocam em banda relatam que no palco são julgadas não pela música que fazem, mas pelo corpo, e por serem mulheres - fiu fiu, gostosa, etc é mais comum do que elogios ou críticas às mulheres pela sua produção como artistas.
  3. Violência contra a mulher. A cada dois minutos, cinco mulheres são vítimas de violência no Brasil. 16% de mulheres já levaram tapas, empurrões ou foram sacudidas, 16% sofreram xingamentos e ofensas recorrentes devido a sua conduta sexual e 15% foram controladas a respeito do local aonde iam e com quem sairiam. Além disso, 13% sofreram ameaças de surra e 10% já foi de fato espancada ao menos uma vez na vida. A violência sexista, além da agressão física, pode ser de várias formas. E isso tem na música? O exemplo mais forte que vem na cabeça são as letras de música que legitimam a violência e desqualificam as mulheres, tipo “um tapinha não dói”, ou “Eu tô achando que esta mulher danada Ficou mal acostumada e tá gostando de apanhar Ajoelha e chora”, ou “Quero uma mulher que saiba lavar e cozinha, que de manhã cedo me acorde na hora de trabalhar”, ou “mulher finge bem, casar é negócio”, ou “Subi no muro do quintal e vi uma transa que não é normal. E ninguém vai acreditar, eu vi duas mulher botando aranha prá brigar… vem cá mulher deixa de manha minha cobra quer comer sua aranha” …. 

A música pode ser livre do machismo!


E a convocatória do Festival aponta pra isso, ao afirmar que

(…)Observamos uma histórica segregação das mulheres em determinados espaços na sociedade, da qual deriva a situação de discriminação, invisibilidade e desvalorização da produção das mulheres presente, ainda hoje, também no âmbito da cultura. Queremos, através do Festival, contribuir para a inserção das mulheres em todas as etapas do processo de produção cultural.

Então, aqui vão umas ideias soltas que podem servir pra cumprir esse objetivo:
O machismo poderia ser um assunto presente nas discussões preparatórias do festival. Só de ser um assunto, isso passa a ter visibilidade, e vira uma questão que não pode ser ignorada. Como o machismo se reproduz na música e na cultura? Como é possível combatê-lo? O feminismo também pode ser um assunto =)
Poderia ter espaço pra aprender com as experiencias de festivais organizados com o objetivo de inserir as mulheres, como o mulheres no volante, o festival da mulher afro latinoamericana e caribenha, ou com a organização das mulheres no Hip Hop, enfim, tem várias experiencias. No Brasil e fora do Brasil – já que o festival é internacional. Um exemplo é a Gals Rock. Cada grupo que organiza estes espaços tem um monte de acúmulo pra socializar.
Poderia ter um incentivo concreto pra participação das mulheres. Na política, existem cotas mínimas para as mulheres, como uma ação afirmativa. E no festival da música livre, o que pode ser? Dá pra fazer um esquema tipo as cotas? Ou algum compromisso concreto de inserção das mulheres, oficinas específicas pra mulheres, ou outra forma que a criatividade coletiva inventar. E aí é legal pensar em todas as etapas da produção, e todas as partes que compõem o festival: as bandas, as produtoras, as técnicas, as debatedoras nas mesas, etc, etc, etc.
Poderia ter uma atividade preparatória que faça o debate sobre as mulheres na música, sobre música livre do machismo…
Já que o Festival faz referencia ao Forum Social Mundial, poderia ter alguma coisa parecida com a Politica de igualdade, proposta pela Marcha Mundial das Mulheres e a REMTE, e aprovada no FSM. Entre as definições dessa política estava a declaração do FSM como um território livre da violência contra a mulher.
Poderia ser critério pros patrocinadores ou fornecedores de cerveja a não mercantilização do corpo das mulheres em sua publicidade.

Poderia ser um monte de coisas, mas pra ser assim, tem que ser um objetivo do festival que a música livre também seja livre do machismo, contribuindo assim pras mulheres serem mais livres nesse mundo.
Querer-se livre é também querer livres os outros.
Que nada nos defina. Que nada nos sujeite. Que a liberdade seja a nossa própria substância.
(Simone de Beauvoir)

Post da Tica Moreno, militante da MMM em São Paulo.

terça-feira, 5 de abril de 2011

Convocatória – Lançamento do Festival Internacional de #MusicaLivre – #FimLivre #CulturaDigital #Feminismo

Nós do movimento Música Para Baixar (MPB) compreendemos a música não apenas como entretenimento mas como uma forma da  liberdade de expressão de ideias e sentimentos humanos. A falta de transparência na distribuição de recursos advindos da produção e o acesso intermediado por monopólios não contribuem para a diversidade musical brasileira tampouco para uma maior geração de renda dos artífices envolvidos na cadeia produtiva da música.
Vivemos um momento de definições do que é acesso e produção de música. As novas tecnologias, atualmente por terem a capacidade de ampliar as possibilidades de democratização da comunicação, da música e do conhecimento, atravessam um processo de ataques institucionalizados de diferentes setores que acirram a vigilância e o controle sobre o ambiente digital. Leis que regulamentam a circulação de conhecimentos e de propriedade intelectual são cada vez mais rígidas e engessam, por sua vez, as possibilidades criativas, com nítidos objetivos de determinar o que será consumido como cultura.
Ao mesmo tempo, observamos uma histórica segregação das mulheres em determinados espaços na sociedade, da qual deriva a situação de discriminação, invisibilidade e desvalorização da produção das mulheres presente, ainda hoje, também no âmbito da cultura. Queremos, através do Festival, contribuir para a inserção das mulheres em todas as etapas do processo de produção cultural.
O Festival Internacional de Música Livre (#FimLivre) será um espaço de mostra musical e debates, em que valores como colaboração, flexibilização das leis de direito autoral,  generosidade intelectual, ativismo, troca, criação livre, licenças  livres, redes sociais digitais e produção compartilhada serão elementos a serem discutidos enquanto novas possibilidades que integram a produção musical e desenvolvimento local. Representam um momento único de reapropriação da música, arte, tecnologia e comunicação colaborativa, por todas e  principalmente par aqueles que até agora foram excluídos do acesso à criação, produção e apreciação da música.
Reconhecemos o apoio e parceria do Governo do Estado do RS que, através do Gabinete Digital do Governador Tarso Genro, constrói o #FimLivre de forma colaborativa com ativistas da cultura e música digital, para que nesse processo possamos também elaborar políticas públicas para o desenvolvimento de uma sociedade livre para o bem comum, em que a mais pessoas participem desse processo, efetivamente, desde sua concepção até sua implementação.
O desafio também é pensar políticas públicas que considerem as práticas da internet, que organizem cadeias produtivas e modelos de criação, produção e apreciação da música, que fomentem relações sociais, culturais e econômicas justas e transparentes, sem intermediários, para que exista cada vez mais equilíbrio entre remuneração justa d@ criador(a) e gestor(a) das suas obras e o livre acesso aos cidadãos.
Sob essas perspectivas, o Movimento Música Para Baixar convoca organizações, coletivos e indivíduos para lançamento #FimLivre, que acontecerá na Casa de Cultura Mário Quintana, no dia 13 de abril às 16h em Porto Alegre.
O lançamento do #FimLivre é também parte da programação do Festival IberoAmericano “EL MAPA DE TODOS” que acontecerá nos dias 12, 13 e 14 de abril, em Porto Alegre, com participação de artistas de diversos países. Saiba mais: http://www.elmapadetodos.com.br
Serviço:
O que? Lançamento do Festival Internacional de Música Livre – #FimLivre.
Onde? Casa de Cultura Mário Quintana – Porto Alegre
Quando? 13 de abril às 16h.

O lançamento será transmitido pela internet. O endereço da transmissão será informado neste link: http://openfsm.net/projects/fimlivre/blog/ e nas redes sociais.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Gênero em Movimento: Ciclo de filmes e debates


Ciclo de filmes realizado pela Kiwi Companhia de teatro/Cooperativa Paulista de Teatro em parceria com Cinemulher e com apoio do Centre Audiovisuel Simone de Beauvoir e do Centro Cineclubista de São Paulo. Confira a programação 

Bajo Juarez. Laciudad devorando a sus hijas, de Alejandra Sánchez e José Antonio Cordero (México, 2007), 96 min. Documentário sobre a morte de mais de 400 mulheres durante os últimos 15 anos em Ciudad Juárez, uma vila de operárias na fronteira com os Estados Unidos. O filme dá a palavra às parentes das mulheres assassinadas, às mulheres que vivem em Juárez sob ameaça constante de violências e às jornalistas que procuram revelar a verdade por trás destas mortes. 
Debate com Amelinha Teles, fundadora da União de Mulheres de São Paulo 
Dia: 06 de abril (quarta-feira), 19h. 

El dia que me quieras, de Florence Jaugey (Nicarágua, 1999), 61 min. O cotidiano de mulheres policiais e assistentes sociais dentro de uma delegacia de mulheres e da infância em Manágua. 
Debate com Coletivo Dandara da Universidade de São Paulo 
Dia: 07 de abril (quinta-feira), 19h. 

Amores de Rua, de Eunice Gutman (Brasil, 1994), 46 min. Documentário que aborda a sexualidade e direitos civis das prostitutas do Rio de Janeiro. 
Debate com a cineasta Eunice Gutman e representantes da Marcha Mundial das Mulheres 
Dia: 08 de abril (sexta-feira), 19h. 
LOCAL: Câmara Municipal de São Paulo (Plenarinha) 
Viaduto Jacareí, 100 - Bela Vista, São Paulo (metrô Anhangabaú) 

Fala mulher!, de Graciela Rodriguez e Kika Nicolela (Brasil, 2005), 80 min. Documentário em que quinze mulheres afrodescendentes falam sobre suas vidas, todas têm em comum a paixão pelo samba. No cotidiano, são manicures, domésticas, secretárias, cabeleireiras e professoras batalhando pela sobrevivência. 
Debate com Graciela Rodriguez, cineasta e integrante do Grupo teatral TUOV e Kika Silva, fundadora da Organização de mulheres negras Oriashé e integrante do Fórum Estadual de Mulheres Negras de São Paulo. 
Dia: 09 de abril (sábado), 18h30. 
LOCAL: Centro Cineclubista de São Paulo (CECISP) 
Rua Augusta, 1239 - cj. 13/14, Centro, São Paulo 
Este ciclo faz parte do projeto Carne – Patriarcado e capitalismo (2010-2011), desenvolvido pela Kiwi Companhia de Teatro com o apoio do Programa de Fomento ao Teatro para a cidade de São Paulo. 


quinta-feira, 31 de março de 2011

Sobre periguetes e feministas (ou sobre a mercantilização do corpo e do sexo das mulheres)

Texto da Bruna Provazi, militante da MMM entre São Paulo e Juiz de Fora.


Ontem eu e a Tica participamos de uma mesa na Semana da Mulher da FFLCH (Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas) da USP que tinha como tema “Mercantilização do corpo e do sexo”. A Thandara, quem me convidou pra participar, queria que eu falasse especificamente da representação da mulher nos meios de comunicação, e um pouco sobre a mulher nos espaços de produção de cultura também, a partir do Festival Mulheres no Volante. [Tudo isso em dez minutos. Rysos.]
Daí, pensando em alguns possíveis exemplos, me dei conta de que realmente não assisto televisão há muito tempo. Quando muito, vejo o programa da Regina Casé, na hora do almoço, no domingo. E eu sei o quanto isso soa feio, mas não é questão de prepotência, de elitismo – aliás, pagar de cult no Brasil é bem brega, viu? -, acho que perdi a paciência mesmo, acho chato e ponto. Não condeno quem assiste novela, BBB ou futebol, por mais que os dois primeiros sejam, geralmente, considerados fúteis e associados ao universo feminino, enquanto que o hábito de assistir a um joguinho seja muitíssimo bem aceito socialmente por aqui e, geralmente, associado ao universo masculino (“Chamar futebol de fútil? Você tá de TPM, né?!”). Mas parte dessa minha chatice talvez tenha a ver com o tema da mesa: eu não me sinto representada na TV. E não sou minoria, não.
Representação das mulheres na mídia
A Fundação Perseu Abramo lançou uma pesquisa, recentemente, sobre corpo, mídia e sexualidade.
Segundo essa pesquisa, 80% das entrevistadas consideram que sua representação na mídia as desagrada e contribui para a desvalorização da figura feminina. Tem mais dados interessantes:
Declaram-se totalmente satisfeitos “em relação ao amor”:
71% dos homens, contra 58% das mulheres hoje (53% em 2001);
Declaram-se totalmente satisfeitos “com sua saúde física”:
69% dos homens, contra 56% das mulheres hoje (58% em 2001);
Declaram-se totalmente satisfeitos “com sua aparência física”:
70% dos homens, contra apenas 50% das mulheres hoje (54% em 2001).

Entre a quase metade das mulheres que não está plenamente satisfeita com sua aparência, declaram-se espontaneamente descontentes com a barriga 15%, acima do peso 14% e com os seios 7%.
Uma em cada três mulheres (33%) diz que se sente “como se recebesse um elogio” quando um homem mexe com ela na rua, contra uma em cada quatro (25%) que se sente “desrespeitada”. Em 2001 essas taxas eram invertidas, respectivamente 27% e 32%.
A maioria das mulheres (64% hoje, 59% em 2001) avalia que de um modo geral elas próprias “saem perdendo” por ser comum no Brasil usarem “roupas que marcam o corpo, como calças justas, saias curtas e blusas decotadas”. Apenas 9% acreditam que as mulheres “saem ganhando” com isso (18% em 2001).
Quatro em cada cinco (80% hoje, 77% em 2001) acham ruim que “na televisão sempre tem programas com mulheres dançando com roupas curtas, mostrando bastante o corpo”, sobretudo por avaliar que isso “dá muita atenção só para o corpo e desvaloriza todas as mulheres” (51%, contra 56% antes).
Três em cada quatro brasileiras (74%) são favoráveis a “um maior controle da programação e da publicidade na TV”, dividindo-se entre as que acreditam que isso deve ser feito por autorregulamentação das TVs e agências de publicidade” (38%), as favoráveis a uma “maior fiscalização ou censura por parte do governo” (37%), e ainda as que prefeririam o controle “por um órgão ou conselho com pessoas da sociedade” (20%).
Ou seja, as mulheres entrevistadas estão mais insatisfeitas com sua própria aparência que os homens, e se preocupam mais com o considerado sobrepeso, com a barriga e com o tamanho dos seios. E essa insatisfação aumentou, em 10 anos. É simbólico também que 74% das entrevistadas sejam favoráveis a algum tipo de controle (governamental, do mercado ou da sociedade) sobre o conteúdo da programação e da publicidade da mídia. Isso não é censura, é democratização da comunicação. É regulamentar, monitorar, criticar a nossa imagem num meio de comunicação que é concessão pública, que é nosso.
Mulheres na produção do jornalismo
De acordo com uma pesquisa realizada pela The International Women’s Media Foundation com 522 empresas jornalísticas, em cerca de 60 países, as mulheres representam apenas 1/3 (33,3%) da força de trabalho do jornalismo. Se pensarmos em cargos de direção (chefes de redação, editoras,…), essa porcentagem é ainda menor.

Mulheres nas notícias
Segundo a World Association for Christian Communication (WACC), as mulheres representam 24% das fontes de informação no mundo. Sabe o que isso significa? Que se um jornalista vai fazer uma matéria sobre silicone, ele provavelmente vai entrevistar uma mulher que quer colocar silicone, e um médico falando como o procedimento se tornou acessível de uns tempos pra cá. Nunca uma médica feminista chata falando dos riscos à saúde e da imposição dos padrões de beleza. Se a matéria é sobre o aumento do pãozinho, provavelmente vai ter uma dona-de-casa reclamando e um economista justificando o aumento. Mas sabe o que tá nas entrelinhas disso? Invisibilidade e desvalorização do trabalho das mulheres. A tal da divisão sexual do trabalho, de novo: homens especialistas reafirmando seus papeis no mundo público e mulheres (boa mães, boas donas-de-casa ou mocinhas fúteis) perpetuando seus papeis relacionados ao mundo privado.

Ontem, quando estava pesquisando sobre o que vem sido exibido na televisão, esbarrei com uns textos muito legais sobre o assunto. A Srta. Bia falou, no post A Helena que não Viveu a Vida, sobre todos os preconceitos de gênero encontrados numa novela do Manoel Carlos que tinha Taís Araújo como protagonista, a fim de quebrar o preconceito de raça. Também li o texto que a Nina Lemos escreveu, ontem mesmo, sobre a pequena revolução que Maria, a “periguete” do BBB, fazia, ao chegar na final – e não é que a moça ganhou 1 milhão? A Clarrisa Correa e a Fabi Motroni também escreveram textos muito bacanas sobre a Maria.
Achei também um post ótimo da Maíra Kubík com seus desejos de fim de ano:
1) Que toda a violência contra a mulher seja noticiada de forma abrangente, e não como um caso isolado;
2) Que a mídia nunca se refira a uma pessoa apenas como “a mulher de alguém”;
3) Que não haja nenhuma forma de exploração do corpo da mulher por meio de imagens e/ou texto, em circunstância alguma;
4) Que em toda reportagem pelo menos uma mulher seja consultada como fonte – de preferência não somente como personagem, leia-se a dona-de-casa que comenta o aumento do pão francês, ou como celebridade;
5) Que se adote uma linguagem com preocupação de gênero, ou seja, que as palavras sejam utilizadas tanto no masculino quanto no feminino.
Depois das falas, passamos também o vídeo que fizemos na Fuzarca Feminista sobre as propagandas de cerveja, e que ajuda bastante a fazer esse tipo de discussão.

No final, fiquei muito feliz por ter essas referências incríveis na blogosfera feminista pra consultar. É claro que não falei sobre tudo isso em dez minutos. E é por isso também que fiquei pensando que a gente precisa de mais. Precisa assistir mais tevê – ainda que seja chaaaato. E precisa escrever mais sobre isso pra poder agir mais sobre isso. Porque, como falaram lá no debate da USP, a trabalhadora chega cansada em casa e liga a TV. E sabe o que mais? Amanhã, a trabalhadora passa em frente a uma banca de jornal e lê as manchetes, como a maioria dos “leitores de primeira página” do Brasil. E, no final de semana, ela vê que, entre as opções do cinema perto de casa, tá passando aquele filme lá da Deborah Secco. E se a gente não pensar, não escrever e não tentar intervir nisso, é essa a imagem que ela vai continuar tendo dela mesma, e é essa eterna insatisfação com si mesma que está errada. E ela precisa saber – e no fundo já até sabe – que não precisa ser assim.