terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Olga Benário: Lutei pelo justo, pelo bom e pelo melhor do mundo *

E no mês de fevereiro, a memória é em torno da comunista Olga Gutmann Benário nascida em 1908 na cidade alemã Munique. Sua história de vida é cruzada pela história política da Alemanha e do Brasil, países em que morou durante anos. Sua coragem e dedicação pelo justo, pelo bom e pelo melhor no mundo até hoje são recordados como exemplos e inspirações.
A judia, nascida numa família de classe média alta, recebia diariamente em sua casa na Alemanha uma presença especial como costuma brincar: a luta de classes. Seu pai, advogado e social – democrata (mas diferenciado, segundo Olga) era visitado por trabalhadores que pretendiam fazer demandas judiais contra os patrões. Já sua mãe, uma elegante dama da alta sociedade, via com o horror o comunismo.
Aos 15 anos, a alemã ingressa na militância política, através da organização juvenil do Partido Comunista Alemão (KPD), a Liga Juvenil Comunista da Alemanha (KJVD). Anos mais tarde junto do seu então namorado Otto Braun, também militante comunista, muda-se para Berlin onde se torna secretária de Agitação e Propaganda da Juventude do PC alemão. Suas intervenções eram sempre marcadas pela criatividade e diversidade de idéias para burlar a repressão policial, num período marcado pela disputa política entre o Partido Comunista Alemão e o Partido Nacional Socialista Alemão dos Trabalhadores, ou simplesmente, o Partido Nazista.
Quando recebia tarefas secundárias, Olga resmungava e já denunciava que o trabalho auxiliar era delegado em função de ser mulher. Sua formação intelectual e independência também chamavam a atenção. Quanto Otto a pede em casamento, Olga nega, pois o casamento para ela representava a dependência econômica da mulher.
Ainda em Berlin, Olga é presa e ao ser libertada parte para a União Soviética. Lá passa a ser considerada importante quadro da Terceira Internacional Comunista. Em 1934, a alemã recebe a importante tarefa de participar da realização de uma Revolução Comunista no Brasil. Olga é convidada pelo IV Departamento do Estado-Maior do Exército Vermelho, órgão do serviço secreto militar da União Soviética, para acompanhar, na condição de segurança pessoal, o líder comunista Luis Carlos Prestes, que posteriormente venho a ser seu companheiro.
No Brasil, junto de Prestes e de tantas outras mulheres e homens que lutaram nas frentes de resistência ao autoritarismo do governo Vargas, organiza a Intentona Comunista. No entanto, o levante fracassa e o casal é obrigado a viver na clandestinidade. Em março de 1936 são capturados pela polícia, e Olga por ser judia, é entregue logo depois ao regime nazista de Hitler por Getúlio Vargas, grávida de sete meses. Nem mesmo os protestos pela sua libertação e a violação do Direito Marítimo internacional, por estar grávida, foram suficientes para impedir sua extradição.
Em solo alemão, é levada para Barnimstrasse, a temida prisão de mulheres da Gestapo, local em que teve sua primeira e única filha, Anita Leocádia. Em 1942, a marcante líder é enviada ao campo de extermínio de Bernburg, onde foi executada numa câmara de gás.
Um dia antes da sua morte em viagem a Bernburg, Olga escreve sua última carta marcada por ternas e esperançosas palavras para sua filha e Luis Carlos Prestes:

(...) Lutei pelo justo, pelo bom e pelo melhor do mundo. Prometo-te agora, ao despedir-me, que até o último instante não terão porque se envergonhar de mim. Quero que me entendam bem: preparar-me para a morte não significa que me renda, mas sim saber fazer-lhe frente quando ela chegue. Mas, no entanto, podem ainda acontecer tantas coisas... Até o último momento manter-me-ei firme e com vontade de viver. Agora vou dormir para ser mais forte amanhã. Beijos, pela última vez.

Olga Benário, presente na caminhada!
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MORAIS, Fernando. Olga. São Paulo: Alfa-Ômega, 1985

* Por Paula Cervelin Grassi - militante Marcha Mundial das Mulheres/RS

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Bloco Adeus Amélia! Feminismo no pré carnaval em São Paulo!

O bloco feminista ‘Adeus Amélia’ vai para as ruas de São Paulo mais uma vez.

Este ano, sairemos nas vésperas do carnaval, no dia 17 de fevereiro.
A concentração está marcada para as 17h30, na Praça da Sé.

Vamos ensaiando a letra:

ADEUS AMÉLIA
Amélia não existe mais
O mundo mudou meu amor
Não queira que eu me sinta ela
Adeus, adeus, Amélia.
(bis)
Amélia a mulher de verdade
Não cabe na nossa realidade
Hoje nós somos inteiras
E não pela metade
O universo mudou de repente
Não insista que eu seja ela
O mundo mudou fortemente
Adeus, adeus, Amélia.
Eu também mudei meu amor
E não me venha com xurumelas
Hoje é uma realidade
Adeus, adeus, Amélia.
João, João, cozinha o teu feijão!
José, José, faça seu café!
Zeca, Zeca, lava tua cueca!
Torquato, Torquato, lava o teu prato!
Porfírio, Porfírio, cuida dos teus filhos!

Letra: Aida – Música: Ana Célia


- > O bloco Adeus Amélia é original de Fortaleza,  e saiu pela primeira vez em São Paulo, no 8 de março de 2011.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Simone de Beauvoir e Rosa Luxemburgo: poesias irreverentes e radicais *

Mês de janeiro é mês de recordar duas irreverentes mulheres que marcaram seus tempos ao enfrentar corajosamente as convenções e o patrulhamento ideológico, e hoje são inspirações para a luta feminista e de Outro Mundo Possível: Simone de Beauvoir e Rosa Luxemburgo.
Recontar, mesmo que brevemente essas histórias de experiências femininas, é também afirmar a importância das mulheres na história e romper o silêncio em que estávamos confinadas. Michelle Perrot, conhecida mestra da História das Mulheres, alerta em Minha História das Mulheres: As mulheres ficaram muito tempo sem o relato da história, como se, destinadas à obscuridade de uma inenarrável reprodução, estivessem fora do tempo, ou pelo menos fora do acontecimento (PERROT, 2007, p. 16). Para Perrot uma história sem as mulheres é impossível (p. 13). Assim, nas próximas linhas ao fazer memória da vida dessas destacadas mulheres, iremos contra as definições de histórias e seus agentes já estabelecidos como “verdadeiros” que por muito tempo tornaram as mulheres invisíveis.

Não se nasce mulher, torna-se mulher – Simone de Beauvoir


No último dia 09 Simone de Beauvoir completou 104 anos, se viva. Simone de Beauvoir, em que numa entrevista histórica de 1972 proclamou em alto e bom som sou feminista, é autora da famosa frase Não se nasce mulher, torna-se mulher. A afirmação faz parte do seu livro o Segundo Sexo lançado na década de 40 e que marcou os estudos feministas e a questão de gênero. O livro, que na época levantou inúmeras polêmicas tanto por parte da direita como da esquerda, trata das condições sociais e culturais enquanto responsáveis pela construção da identidade feminina e masculina. Em entrevista à Alice Shwarzer (1972), Beauvoir recorda trinta anos depois sobre seu livro e defende O eterno feminino é uma mentira, pois a natureza desempenha um papel ínfimo no desenvolvimento de um ser humano: somos seres sociais.
Nascida em Paris no ano de 1908, Simone presenciou durante sua infância sua família falir. Seu pai George de Beauvoir considerou que as filhas não conseguiriam bons casamentos e assim passou a crer que somente o sucesso acadêmico poderia tirar as filhas da pobreza. Mais tarde a francesa criticava os valores burgueses em Memórias de uma moça bem comportada.
Na década de 60, nos nascentes movimentos feministas, Simone se envolveu na luta das mulheres e defendia um movimento feminino especifico e autônomo. E até hoje seus estudos e sua vivência são revisitados e refletidos, inspirando a luta diária de mulheres.

Socialismo ou barbárie – Rosa Luxemburgo

Já no dia 15, a memória se volta para a polonesa judia Rosa Luxemburgo, conhecida com a Rosa Vermelha. Completou – se 93 anos do assassinato de Rosa, morta na noite de 15 de janeiro de 1919 em Berlim por soldados a serviço de governantes social-democratas. Eles atiraram em sua cabeça depois de horas de tortura do Hotel Éden e jogaram seu corpo num canal. Somente em 31 de maio encontraram seu corpo já irreconhecível e podre, sendo reconhecida por pedaços de vestido e um pingente.
Sua conhecida palavra de ordem Socialismo ou barbárie resume sua vida marcada pela luta da esquerda radical, anti-capitalista e anti-imperialista. Rosa Luxemburgo Rosa iniciou sua militância no movimento socialista ainda quando estava na escola secundária e em 1894 fundou o Partido Social-Democrata (SPD) da Polônia e Lituânia. Após 4 anos,obteve a nacionalidade alemã, instalando-se em Berlim e engajando-se nos debates com a social-democracia alemã. Percebendo elementos de capitulação – que depois ajudaria a ascensão do nazismo – Rosa enfrentou o reformismo de Edouard Berstein. A teórica marxista atacava as teses revisionistas, denunciando o esquematismo teórico e o oportunismo político de Berstein, que abandonava não apenas o marxismo como a luta pelo socialismo. Para Rosa, “entre a reforma e a revolução devia haver um elo indissolúvel” no qual “a luta pela reforma é o meio e a revolução social é o fim”.
Anos mais tarde lança A Acumulação do Capital, combatendo as correntes nacionalistas do SPD e firmando seu internacionalismo proletário e seu antimilitarismo radical. Rosa também ajudou na fundação do Partido Comunista da Alemanha (KPD).
Rosa Luxemburgo é um exemplo para nós mulheres ocuparmos cada vez mais os espaços da cena política, seja em movimentos sociais ou partidos políticos. Além disso, sua defesa de um projeto anti-capitalista nos provoca a refletir de que a construção de uma igualdade real entre mulheres e homens deve ser permanentemente ao lado da luta contra as diversas formas de dominação. Nesse caso o fim da opressão de gênero só será possível com uma mudança do sistema vigente de opressão social.

Por fim, as vidas dessas duas mulheres permeadas pela poesia irreverente e radical se cruzam na palavra de ordem encontrada na Itália por Simone de Beauvoir em suas andanças: Nada de revolução sem a emancipação da mulher, nada de emancipação da mulher sem a revolução.
Que a nossa memória corrompida por inúmeros patriarcalismos não nos mova ao esquecimento das inspiradoras Simone de Beauvoir e Rosa Luxemburgo.


*Por Paula Grassi - estudante de história e militante da Marcha Mundial das Muheres/RS

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Convite pra intervenção urbana sobre Globo/estupro no BBB

Cartaz exibido durante a Marcha das Vadias em Brasília

Amanhã, nós da Fuzarca Feminista (núcleo jovem da Marcha Mundial Das Mulheres de São Paulo) vamos fazer uma intervenção urbana sobre o caso Globo/estupro no BBB/violência contra a mulher.

Temos ocupado as ruas e as redes para dizer um basta à violência contra a mulher. Só no ano passado, participamos de inúmeras Marchas das Vadias, da Marcha das Margaridas, que reuniu 70 mil mulheres (do campo, da cidade e das florestas) em Brasília, e das manifestações do dia 8 de março. Agora vamos nos reunir novamente, pra trocar ideias sobre o tema e fazer uma ação de rua.   

Convidamos a todas que ficaram indignadas também para contribuir. ;)

Traga suas ideias, frases, tintas e chapas de raio-x daquele braço que você quebrou no ano passado!


E vamos pras ruas!

Preparação

Quando? 19/01/12
Que horas? 20h
Onde? SOF – Rua Ministro Costa e Silva, 36 Pinheiros (travessa da rua Mourato Coelho, na altura do nº 913). A estação de metrô mais próxima é a Faria Lima (linha amarela).

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Capitalismo patriarcal - Entrevista com Tica Moreno *

O combate à mudança climática como escalão de luta contra o capitalismo: a visão das mulheres

Várias organizações de mulheres foram até a cidade sul-africana de Durban para manifestar seus pontos de vista nos marcos das atividades paralelas à COP XVII de Mudança Climática das Nações Unidas, que se realiza nesta cidade até o dia 9 de dezembro.
Algumas dessas organizações apresentam um enfoque muito crítico do sistema capitalista, ao que consideram causa fundamental das diversas desigualdades, dentre elas a de gênero. As mulheres garantem que são elas as mais atingidas pela mudança climática e afirmam que não pode haver justiça climática sem justiça de gênero.
Rádio Mundo Real entrevistou em Durban a ativista Tica Moreno, integrante da Marcha Mundial das Mulheres durante a marcha realizada no sábado, no Dia de Ação Global por Justiça Climática. Tica começou explicando à Rádio Mundo Real que a Marcha Mundial das Mulheres está presente em Durban como parte de um “proceso global de resistência ao capitalismo, que é patriarcal e que hoje está se expandindo cada vez mais para a mercantilização da natureza em todos os níveis”. Segundo ela “é um momento para posicionar de novo o feminismo como parte desse enfrentamento global ao capitalismo patriarcal”.
A ativista também criticou os mecanismos de mercado que têm servido aos países industrializados para “comprar sua saída” das reduções obrigatórias de emissões de gases de efeito estufa. Um dos mais destacados é o Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL), presente no Protocolo de Kioto e mediante o qual os estados desenvolvidos financiam projetos no Sul global chamados “limpos” para compensar suas emissões contaminantes. Dessa forma não há reduções de emissões no mundo rico, responsável histórico pela crise do clima.
Esses mecanismos “hoje estão sendo apropriados do trabalho das mulheres, do tempo das mulheres, como se fosse um recurso inesgotável do sistema, da mesma forma que faz com a natureza”, disse Tica Moreno. “Nossa ideia aqui é justamente mostrar uma perspectiva feminista sobre como a mercantilização da vida está interconectada em todas as esferas, natureza, trabalho, machismo”, acrescentou .
Inúmeras organizações de mulheres e camponesas afirmam que são elas as mais atingidas pela mudança climática. A ativista afirma que isto é porque “em todo o mundo as mulheres são as responsáveis principalmente do trabalho de sustentabilidade da vida humana”, disse a ativista brasileira. As intensas chuvas, as inundações, secas, entre tantos outros eventos climáticos, dificultam ou impedem especialmente os diversos trabalhos para assegurar a subsistência das comunidades.
Tica falou também sobre as alternativas apresentadas pelas mulheres para lutar contra a mudança climática. Indicou que “em todo o mundo as mulheres estão construindo agroecologia, na luta pela soberania alimentar”.
A agroecologia e a agricultura camponesa sustentável, sem uso de grandes maquinarias nem agrotóxicos, ajudam a “esfriar” o planeta expressa a Via Campesina. O próprio conceito de soberania alimentar representa uma mudança de sistema, enfatizando o abastecimento com alimentos às comunidades e populações locais, evitando os transportes a grandes distâncias. O setor agrícola e o de transportes são dos dois mais importantes na emissão de gases contaminantes em nível mundial. “As mulheres estão protagonizando as verdaderas soluções dos povos contra as falsas soluções de mercado”, afirma Tica Moreno.
Alguns dias atrás a ativista Emily Tjale, do Movimento pelo Acesso à Terra da África do Sul, havia dito à Rádio Mundo Real que “não pode haver justiça climática sem justiça de gênero”. Assim, perguntamos a Tica o que é preciso, para a Marcha Mundial das Mulheres, para atingir a justiça climática.
Para ela, “primeiro é necessário que haja igualdade. Justiça climática para nós tem uma dimensão de igualdade muito forte”, disse a dirigente brasileira. “Significa que as mulheres têm que ter autonomia sobre seus corpos, suas vidas, seus trabalhos, que as mulheres têm que ter uma vida livre de violência, em resumo, que hajam relações igualitárias entre homens e mulheres em todos os espaços da vida”.
Para que haja justiça climática “também é preciso incidir sobre a divisão sexual do trabalho que sustenta o capitalismo hoje”, disse. “Justiça climática para nós é a dimensão de outro sistema, de um novo paradigma de sustentabilidade da vida humana, que constrói igualdade entre homens e mulheres”, concluiu a ativista.

*Postado originalmente em  http://www.radiomundoreal.fm